Entre a Impressão de Moeda e a Perseguição ao Airbnb: Raízes Econômicas da Crise Urbana 

A década de 2020 consolidou-se, de forma incontestável, como um período de inflação crônica inaugurado pela crise sanitária da COVID-19. O que começou como uma pausa global forçada — na qual governos decidiram paralisar as atividades econômicas enquanto injetavam somas expressivas de dinheiro na sociedade para mitigar os impactos da paralisia social — transformou-se em um motor permanente de desvalorização monetária. 

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Embora a emergência sanitária tenha ficado para trás, a impressão descontrolada de dinheiro persistiu como ferramenta de conveniência política, impulsionada tanto por governos de esquerda quanto de direita sob o pretexto de evitar a vitória do espectro político oposto. Esse coquetel de liquidez excessiva, aliado a políticas urbanísticas restritivas e ao avanço tecnológico nos transportes, gerou um efeito dominó implacável: encareceu o custo de vida, inflacionou o mercado imobiliário global e abriu caminho para bodes expiatórios convenientes, como o turismo de curta temporada e as plataformas de aluguel por aplicativo.

O grande arco da valorização imobiliária

A década de 2020 é uma década de inflação desde a crise da covid-19. Consequentemente, de crise imobiliária e populismo político. Explico-me 

Quando as sociedades ao redor do mundo, pasmadas com as informações sobre o coronavírus advindas de Wuhan, decidiram que toda a sociedade daria um pause, pararia de funcionar para impedir a circulação do vírus e que o Estado proveria dinheiro para todo mundo parar de trabalhar, teríamos uma sociedade inflacionária. A paralisia social se prolongaria pela impressão de moeda.

No entanto, a covid desapareceu do debate em 2022. Ela dominou o noticíário por 2 anos e depois desapareceu e nunca mais foi discutida. 

Porém, uma coisa que não acabou da crise da covid é: impressão descontrolada de dinheiro para as diversas finalidades políticas, seja para fins eleitorais, seja para financiar a guerra com o Irã. Direita e esquerda se dão as mãos aqui. A histeria com a polarização política resulta em aumento de gasto público e impressão de dinheiro. 

Não temos covid, mas temos esses dados sobre impressão de dinheiro no Banco Central. Imprima-se dinheiro, ou o lado político oposto vai vencer. Do ponto de vista da esquerda, é sempre o “fascismo” que vai governar, sem nenhum senso do conceito histórico. Para a direita, é a a “ditadura gayzista”, com um argumento tão mal elaborado quanto. Lula da Silva, hoje, em 2026, aumenta o Bolsa Família e Jair Bolsonaro, em 2022, fez a PEC Kamikaze, contra a vontade do seu próprio Ministro da Fazenda.   

Veja aqui os agregados monetários no site do Banco Central do Brasil

Essa impressão inflacionária de dinheiro necessariamente vai ter efeito no mercado imobiliário. Quando o dinheiro não para de crescer e o tijolo é fixo, o tijolo encarece. 

Nos EUA e Europa, também acontece o mesmo fenômeno paradoxal de aumento imobiliário mesmo em sociedades que estão envelhecendo e morrendo. Lá, somado à questão inflacionária. temos um urbanismo hostil à construção, as famosas leis Not in My Backyard – NIMBY – e um crescimento populacional por meio de imigração em larga escala. 

Está estabelecido o coquetel explosivo para aumento do preço dos imóveis 

Interessante que isso aconteceu num momento em que as populações nativas dos países desenvolvidos estarem em queda. O oposto seria o esperado. Menos gente, menos demanda por moradia. Quem não se lembra quando São Paulo, Rio de Janeiro, Lima ou Medellin, na década de 1970, tiveram taxas de crescimento populacional de mais de 40% ao ano? O êxodo rural criou uma crise imobiliária sem precedentes há 50 anos atrás.  

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O crescimento da demanda por locação por temporada

Para piorar, as leis NIMBY dificultaram a expansão da rede hoteleira e criaram o espaço aberto para a demanda por Airbnbs num momento de aumento explosivo da demanda turística. 

Empresas que você provavelmente nunca ouviu falar – Rolls Royce, General Electric e Pratt and Whitney – diminuíram o mundo e causaram um crescimento turístico agressivo. Como? Elas fizeram motores aeronáuticos que fazem um avião de 2026 consumir menos de um terço do combustível de um avião de 1966 e baratearam as passagens. O turista chega nas grandes cidades referência do turismo internacional e não encontra hospedagem, pois as leis municipais restritivas não permitiram fazer torres de hotel em quantidade proporcional ao aumento da demanda, criando demanda por formas alternativas de hospedagem. Surge daí a demanda por locação por temporada em larga escala. 

A perseguição legislativa ao AirBnbs

O crescimento das locações por temporada tem relação com a crise imobiliária? Sim, mas não é o único nem o principal, que está ligado à bolha monetária, ao excesso de liquidez e à imigração descontrolada. De toda forma, houve perseguição implacável às locações por temporada de curto prazo. 

O rápido avanço das plataformas de aluguel de temporada, simbolizado pelo crescimento global do Airbnb, transformou profundamente a dinâmica urbana e o setor de turismo nas últimas décadas. Se por um lado a modalidade democratizou o acesso a acomodações diversificadas e gerou renda extra para proprietários, por outro gerou intensos debates devido ao seu impacto direto na escassez de moradias de longa duração, na disparada dos preços imobiliários e nos transtornos associados ao turismo excessivo, o overtourism. Como resposta a essa pressão social e econômica, governos municipais e nacionais ao redor do mundo passaram a implementar proibições severas, restrições rigorosas e novos marcos regulatórios.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa mudança de postura ocorreu em Nova York, nos Estados Unidos, com a implementação da rigorosa Local Law 18. A legislação estabeleceu que, para realizar locações com menos de 30 dias, o proprietário deve obrigatoriamente residir no imóvel durante a estadia, limitando a permanência a no máximo dois hóspedes pagantes. Na prática, essa exigência de registro prévio e de convivência com o anfitrião resultou no desaparecimento quase total de apartamentos inteiros anunciados para curtas temporadas na cidade.

Na Europa, o cenário de enfrentamento ao turismo de massa é ainda mais drástico. Barcelona, na Espanha, anunciou um plano contundente com o objetivo de banir completamente todos os apartamentos turísticos até 2028, revogando mais de 10.000 licenças ativas para devolver o mercado imobiliário aos residentes locais. Políticas semelhantes de controle e zoneamento foram adotadas em Berlim, na Alemanha, onde o aluguel de unidades inteiras exige licenças especiais difíceis de obter, e em Amsterdã, na Holanda, que limitou a atividade a um teto máximo de 30 dias por ano, além de proibi-la por completo em bairros históricos.

A preservação do tecido social e urbano também motivou restrições severas em capitais históricas. Paris, na França, exige o registro obrigatório de imóveis e impõe o limite de 120 dias anuais para residências principais, contando com ferramentas digitais avançadas para combater a atuação de anfitriões clandestinos. Em Florença, na Itália, a prefeitura proibiu novos registros de aluguéis turísticos no centro histórico para frear o esvaziamento de moradores nativos. Dinâmica parecida ocorreu em Lisboa, Portugal, onde o governo suspendeu novas licenças de alojamento local em zonas de alta pressão imobiliária e conferiu aos condomínios o poder de vetar a atividade nos edifícios.

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Outras metrópoles buscam o equilíbrio por meio de restrições rígidas baseadas na tipologia da hospedagem ou em limites temporais. Kyoto, no Japão, protege o sossego de seus bairros tradicionais ao proibir aluguéis de temporada em áreas residenciais na maior parte do ano. Viena, na Áustria, proibiu a prática em zonas residenciais protegidas e limitou a locação sem autorização a 90 dias anuais. Nos Estados Unidos, a cidade californiana de Santa Mônica baniu o aluguel de curta duração em quase toda a sua extensão, exceto no modelo estrito de residência compartilhada, obrigando as plataformas digitais a removerem anúncios irregulares.

Conclusão

Em última análise, a perseguição legislativa e as proibições drásticas impostas ao Airbnb em metrópoles globais — de Nova York a Barcelona, passando por Paris e Kyoto — tratam-se, em grande medida, de focar no sintoma enquanto se ignora a doença. 

Embora o avanço das locações por temporada e o turismo de massa exerçam forte pressão sobre os centros urbanos, eles não constituem a raiz primordial da crise imobiliária contemporânea. O verdadeiro motor desse desequilíbrio reside na bolha monetária global, no excesso estrutural de liquidez gerado por governos irresponsáveis, nas amarras do urbanismo restritivo (como as leis NIMBY) e nas profundas distorções macroeconômicas da nossa época. 

Ao tentar solucionar a escassez de moradias por meio de restrições puramente punitivas ao setor de hospedagem alternativa, os gestores públicos muitas vezes combatem os efeitos colaterais de uma inflação sistêmica que eles próprios ajudaram a criar.

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