Arquivo da categoria: Divórcio

Aqui, reunimos as categorias referentes a divórcio.

O Teatro da Indissolubilidade Marital das Filipinas: O Labirinto Jurídico, Social e Psicológico.

Introdução: A Represa e o Resíduo Colonial

Dentre os 193 países que compõem a Assembleia Geral da ONU, as Filipinas ostentam um título solitário e anacrônico: é a única nação soberana onde o divórcio civil é inexistente. Enquanto o restante do globo, em maior ou menor grau, aceitou o divórcio como um remédio jurídico necessário para a falência do afeto, o arquipélago asiático mantém-se como um museu vivo de uma doutrina canônica que confunde o sacramento religioso com a regulação da vida civil.

Para entender o peso dessa ausência, é preciso olhar para o espelho do Brasil. Em 1977, após décadas de resistência de uma bancada católica ferrenha, o divórcio foi autorizado. O que se seguiu foi uma abertura de comportas tão agressiva que, em menos de três décadas, o país saltou da indissolubilidade para o divórcio direto em cartório, eliminando prazos, discussões de culpa e burocracias que ainda travam democracias mais ricas. 

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O Brasil foi o décimo último país do mundo a autorizar o divórcio, em 1977, e a lista dos que vêm depois mostra que os países que demoraram a legalizar têm uma tradição católica furiosa: Espanha (1981), Argentina (1987), Colômbia (1991), Paraguai (1991), Irlanda (1996) e Chile (2004). É óbvio que o fato de a tradição católica ver o casamento como um sacramento divino enquanto as demais culturas e religiões atribuem uma natureza contratual ao casamento atrasou muito o assunto. 

No Brasil, a legalização do divórcio, embora tardia, quando liberou, foi implementada de maneira muito agressiva. Divorciar-se tornou muito menos burocrático do que nos EUA e Europa. A Lei 11.441/2007 possibilitou o divórcio em cartório e a EC 66/2010 criou o divórcio direto, não exigindo mais tempo de separação. Coisas como atribuição de culpa, necessidade de processamento judicial ou períodos de espera, que ainda existem até mesmo em outras terras com renda por habitante maior, não existem em terras tupiniquins. Divórcio notarial é raridade mesmo em países com sistema de notariado semelhante, só existindo na França e Itália.  

No Brasil, o Estado entendeu que a paz social depende da liberdade de saída. Nas Filipinas, o Estado optou por ser o carcereiro de casamentos mortos, criando uma pressão social que, sem saída legal, vaza por frestas de hipocrisia, fraude patrimonial e uma perversão inédita da ciência psiquiátrica.

A Anatomia da Punição: Adultério vs. Concubinato (Brasil vs. Filipinas)

Para compreender a gravidade da situação filipina, é preciso mergulhar no seu Código Penal, que guarda uma distinção de gênero profundamente discriminatória, herdada do período colonial espanhol (sim, eles foram nossos colegas como colônia espanhola. Porém, enquanto eles homenageraram o Rei Felipe 2º com o nome do país, nós fomos mais modestos e apenas fizemos em uma capital: Filipeia de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa/PB). Aqui, a lei não apenas proíbe a separação, mas pune de forma desigual a infidelidade, criando um sistema de terror jurídico.

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Nas Filipinas, a traição feminina é classificada como “Adultério” (Artigo 333), enquanto a masculina é o “Concubinato” (Artigo 334). No Brasil do início do século XX, tínhamos distinções semelhantes, mas as Filipinas levaram isso ao extremo da sobrevivência. No adultério filipino, basta uma única prova de relação sexual para que a mulher seja condenada a até 6 anos de prisão. Já o homem só é punido por concubinato se mantiver a amante na casa conjugal, se coabitar com ela em outro lugar ou se as circunstâncias forem de escândalo público.

Essa assimetria cria um escudo: ele pode ter uma “segunda família” desde que seja discreto. Mas, para a mulher, a indissolubilidade é uma sentença de castidade forçada. Se ela foge de um marido abusivo e tenta reconstruir sua vida com outro homem, ela vive sob a ameaça constante de uma queixa-crime que pode levá-la ao cárcere. No Brasil, a descriminalização do adultério em 2005 foi o último prego no caixão dessa mentalidade; nas Filipinas, a prisão por infidelidade ainda é a espada de Dâmocles sobre as mulheres que buscam o “divórcio de fato”.

O Impacto Psicológico: A Geração de Filhos “Invisíveis”

A indissolubilidade do casamento não pune apenas os cônjuges; ela marca a ferro a identidade da prole. Nas Filipinas, a distinção entre filhos “Legítimos” (nascidos do casamento oficial) e “Ilegítimos” (nascidos de uniões de fato ou adultério) é uma cicatriz social profunda.

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Psicologicamente, essas crianças crescem em um ambiente de “clandestinidade emocional”. Como o pai não pode se divorciar da primeira esposa, a segunda família vive frequentemente escondida. O filho “ilegítimo” aprende cedo que sua existência é uma prova de um crime ou de um pecado social. Legalmente, o impacto é material: nas Filipinas, um filho ilegítimo tem direito a apenas metade da herança de um filho legítimo.

Essa hierarquia de sangue gera um ressentimento geracional. Enquanto o filho da “casa oficial” tem o sobrenome e o status social, o filho da “casa de fora” ou da nova casa da união cresce com a sensação de ser um erro jurídico. A impossibilidade do divórcio impede que o pai regularize sua nova família, condenando os filhos da segunda união a serem eternos coadjuvantes na história patrimonial do patriarca. É a multiplicação da insatisfação: o pai se sente culpado, a segunda esposa se sente insegura e os filhos se sentem cidadãos de segunda classe.

O Caos Patrimonial e a Paralisia do Progresso

A indissolubilidade do vínculo matrimonial nas Filipinas não é apenas um problema sentimental; é uma trava econômica de proporções nacionais. Quando um casal se separa de fato, mas permanece unido pelo papel, ocorre o que se pode chamar de “congelamento patrimonial”.

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Imagine um trabalhador filipino que, após um casamento fracassado na juventude, reconstrói sua vida, abre um pequeno negócio ou adquire um imóvel dez anos depois. Pela lei filipina, cada centavo desse novo progresso pertence, em metade, à esposa de quem ele se separou de fato há uma década. Esse cenário cria uma paralisia financeira: as pessoas evitam registrar bens em seus próprios nomes. Surge a cultura do “laranja” — imóveis registrados em nome de irmãos, pais ou até da própria companheira informal, em manobras arriscadas para esconder o patrimônio da “família legal”.

Esse imobilismo impede o acesso ao crédito formal e distorce o mercado imobiliário. A lei, sob o pretexto de proteger a unidade familiar, acaba por incentivar a informalidade e a fraude. O Estado, ao se recusar a liquidar o passado, torna-se sócio da mentira econômica.

A Via Sacra da Anulação: O Divórcio dos Ricos

Na ausência do divórcio, resta a Anulação. Diferente do divórcio, que dissolve um vínculo existente, a anulação declara que o casamento nunca existiu por um vício de origem. É um processo caríssimo, demorado e estruturado para humilhar as partes. É aqui que a barreira de classe se torna intransponível.

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Enquanto o brasileiro médio resolve sua separação em uma tarde no cartório, o filipino rico precisa contratar uma banca de advogados e peritos para encenar um teatro jurídico. O custo de uma anulação nas Filipinas pode variar entre 3 mil e 10 mil dólares — uma fortuna em um país onde a renda média é baixa. Assim, o “desquite” torna-se um luxo de casta. Quem tem dinheiro compra a liberdade; quem não tem, vive na “ilegalidade perpétua”.

A Perversão da Psiquiatria: O Artigo 36 e o “Diagnóstico de Aluguel”

O ponto mais bizarro e intelectualmente desonesto do sistema filipino é o uso do Artigo 36 do Código de Família. Ele permite a anulação baseada na “Incapacidade Psicológica” para cumprir os deveres essenciais do casamento. Como é difícil provar fraude ou impotência, a elite filipina transformou a psiquiatria em uma ferramenta de roteirização jurídica.

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Para que um gerente de banco ou um empresário funcional consiga anular seu casamento, ele precisa provar que é um “inválido emocional”. Surge então uma técnica psiquiátrica que não encontra paralelo em nenhum manual clínico global. O perito contratado pela parte interessada redige laudos que são verdadeiras obras de ficção:

  1. A Patologização do Caráter: Traços de personalidade que são úteis no mundo profissional (foco em si mesmo, frieza, pragmatismo) são rotulados como “Transtorno de Personalidade Narcisista” ou “Imaturidade Grave”.
  2. A Retroatividade Forçada: O médico atesta que essa “doença” já existia no dia do casamento, vinte anos atrás, baseando-se apenas em depoimentos colhidos hoje de testemunhas compradas ou parentes coniventes.
  3. A Incurabilidade Jurídica: O laudo deve afirmar que a condição é incurável, forçando o indivíduo a se declarar publicamente um “incapaz de amar” para obter o carimbo da liberdade.

O psiquiatra não teme a perda da licença porque ninguém — nem o paciente, nem o juiz, nem o conselho de medicina — tem interesse em desmascarar a farsa. O laudo é um serviço social prestado à manutenção das aparências. O conselho de ética silencia porque, se cassasse os médicos que “ajudam” nas anulações, a elite filipina perderia sua única válvula de escape. É o triunfo do jargão médico sobre a verdade dos fatos.

A Resistência Política e o Poder do Púlpito

Por que, em 2026, as Filipinas ainda resistem ao óbvio? A resposta reside no Senado filipino e na influência esmagadora da Igreja Católica. Ao contrário de outros países católicos que secularizaram suas leis de família, as Filipinas mantêm uma simbiose entre o púlpito e o plenário.

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Senadores conservadores utilizam o argumento da “Santidade da Família” como uma ferramenta de capital político. Para eles, permitir o divórcio seria abrir as portas para o colapso moral da nação. No entanto, por trás da retórica religiosa, há um medo pragmático de perda de controle social. A Igreja Católica filipina é uma das maiores proprietárias de terras e instituições de ensino do país; seu poder de veto sobre a moralidade pública é uma forma de manter sua relevância política.

Recentemente, a Câmara dos Representantes aprovou um projeto de lei de divórcio, mas ele encontra uma barreira de granito no Senado. Os senadores argumentam que a anulação (o Artigo 36) já é suficiente — ignorando deliberadamente que ela só serve para quem pode pagar. É uma resistência baseada na manutenção de uma ficção: a de que as famílias filipinas são felizes e unidas porque a lei as impede de se separar.

Conclusão: A Santidade da Mentira

A experiência das Filipinas é o retrato acabado de uma sociedade que escolheu a mentira em nome da religiosidade. Ao negar o divórcio, o país não preservou a “família tradicional”; ele apenas a empurrou para a sombra da ilegalidade, da fraude e da patologização forçada.

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Enquanto o Brasil e outros países de tradição católica entenderam que a dignidade da pessoa humana exige o direito de recomeçar, as Filipinas continuam exigindo que seus cidadãos sejam “doentes no papel” para poderem ser “livres na vida”. O resultado é um sistema onde o rico compra um diagnóstico de loucura para casar de novo na Igreja, e o pobre vive na eterna incerteza de um lar que a lei se recusa a reconhecer. Nas Filipinas, a indissolubilidade é a mãe de todas as hipocrisias, provando que onde a verdade não tem saída legal, a mentira torna-se a única instituição eficiente. Onde o amor morre e o Estado proíbe o luto, o que sobra é apenas um teatro de sombras onde todos são atores, e ninguém é realmente feliz.

Herança e Triângulos Amorosos: O Caso Arlindo Cruz e o Que a Lei Diz Sobre a Traição

A vida e obra de Arlindo Cruz, um dos maiores ícones do nosso samba, sempre foram de domínio público. Mas, após a morte do artista, as discussões se voltaram para um tema mais delicado: a herança, especialmente diante das polêmicas que cercam sua vida familiar. Afinal, a traição de um cônjuge ou a existência de filhos fora do casamento pode mudar o jogo na hora da partilha de bens?

Vamos mergulhar nas leis brasileiras para entender como o caso de Arlindo Cruz ilustra uma questão que, apesar de complexa, é mais comum do que se imagina.

A Polêmica: Traição e o Direito da Herdeira

A notícia de que a esposa de Arlindo Cruz teria tido um relacionamento extraconjugal enquanto ele estava em estado vegetativo gerou um debate acalorado. A pergunta que não quer calar é: a infidelidade dela anula seu direito à herança?

Pode parecer contraintuitivo, mas a resposta, sob a ótica da lei brasileira, é não.

O nosso Código Civil (Artigo 1.830) não prevê a traição como motivo para excluir um cônjuge da sucessão. O que pode impactar o direito de herança é o rompimento do vínculo matrimonial, ou seja, se o casal já estivesse separado judicialmente ou de fato há mais de dois anos.

Considerando que Arlindo e a esposa continuaram casados até o fim, a infidelidade dela, por mais que possa ser vista como uma questão moral, não interfere legalmente em seu direito de herdeira.

Os Filhos: Herdeiros Imediatos e Iguais

Outro ponto que chamou a atenção foi a notícia de que Arlindo Cruz tinha um filho fora do casamento. Historicamente, essa situação poderia gerar uma série de complicações, mas a lei brasileira evoluiu para proteger os direitos de todos os descendentes.

Desde a Constituição Federal de 1988, a lei brasileira garante que não existe distinção entre filhos nascidos dentro ou fora do casamento. Todos os descendentes têm os mesmos direitos, independentemente da origem.

Isso significa que o filho extraconjugal de Arlindo Cruz tem exatamente o mesmo direito à herança que os demais, sem qualquer tipo de privilégio ou prejuízo. A justiça prioriza a proteção da criança e a igualdade entre irmãos, independentemente das circunstâncias em que nasceram.

A Conclusão Jurídica do Caso

O caso de Arlindo Cruz nos ensina que, em questões de herança, as emoções e os dramas familiares podem ser intensos, mas a lei é clara e objetiva. A traição não é fator de exclusão, e todos os filhos são iguais perante a lei.

Essas regras são a base para a maioria das sucessões no Brasil, mas cada caso pode ter suas particularidades, como a existência de testamentos, outros herdeiros ou acordos pré-nupciais.

É por isso que, para ter certeza de que todos os direitos são respeitados, a melhor decisão é sempre procurar a orientação de um advogado especializado.

E você, o que pensa sobre a legislação brasileira para casos como o de Arlindo Cruz? Deixe seu comentário!

Planejamento patrimonial para noivos – parte 2

Planejar o casamento vai muito além da festa e da lua de mel. Descubra a importância do pacto antenupcial e como ele pode proteger seu futuro a dois.

Se vocês estão acompanhando nossa série sobre o planejamento jurídico pré-casamento, sabem que na Parte 1 sobre a Escolha do Regime de Bens abordamos a fundamental escolha do regime de bens. Agora que essa decisão crucial foi tomada, o que vem depois? A resposta para muitos casais, especialmente aqueles que optam por um regime diferente do padrão (Comunhão Parcial de Bens), é o Pacto Antenupcial.

Ignorar essa etapa pode trazer sérias dores de cabeça no futuro. Casar é um ato de amor e união, mas também um contrato com implicações legais e financeiras significativas. E, como advogados sabemos, ter clareza e planejar antes é sempre o melhor caminho para prevenir conflitos futuros.

Neste post, vamos mergulhar no universo do pacto antenupcial: o que é, como fazer e, o mais interessante (e talvez surpreendente!), que tipo de regras vocês podem estabelecer nele.

O Que é o Pacto Antenupcial?

De forma simples, o pacto antenupcial é um contrato firmado pelos noivos antes do casamento civil. Ele é formalizado por meio de uma Escritura Pública lavrada em um Tabelionato de Notas.

Neste documento, os noivos declaram suas vontades e estabelecem as regras que irão vigorar durante o casamento e, em alguns casos, até mesmo após a sua dissolução (em caso de divórcio ou falecimento).

Como Fazer o Pacto Antenupcial? O Passo a Passo

Entender o processo é fundamental. Após decidirem sobre o regime de bens (e se este for diferente da comunhão parcial ou se houver outras regras específicas), os passos são:

  1. Procure um Tabelionato de Notas: É aqui que a Escritura Pública do pacto será elaborada e assinada por vocês. É altamente recomendável que, antes de ir ao tabelionato, vocês busquem a orientação de um advogado especialista em direito de família para auxiliá-los na redação das cláusulas, garantindo que seus interesses sejam protegidos e que o pacto seja válido e eficaz.
  2. Lavratura do Pacto: No tabelionato, o tabelião (ou seu preposto) redigirá o pacto conforme a vontade de vocês e a orientação jurídica. Ambos os noivos devem assinar.
  3. Habilitação para o Casamento: Com a Escritura Pública do pacto em mãos, vocês têm um prazo. A lei brasileira estabelece que a habilitação para o casamento civil no Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais deve ser iniciada em até 90 dias a partir da data da lavratura do pacto. É no processo de habilitação que o pacto será apresentado e registrado junto ao edital de proclamas.

Sem o pacto antenupcial devidamente lavrado e apresentado na habilitação, a regra geral do regime de Comunhão Parcial de Bens será aplicada ao casamento, mesmo que a intenção dos noivos fosse outra.

Além do Patrimônio: Tipos de Cláusulas no Pacto Antenupcial

Quando falamos em pacto antenupcial, a primeira coisa que vem à mente é a divisão de bens. E, de fato, as cláusulas patrimoniais são centrais. Elas definem o regime de bens escolhido (quando não é o legal), preveem exceções a esse regime e podem estabelecer regras para a divisão de bens em caso de divórcio, ou até mesmo indenizações patrimoniais relacionadas ao fim da sociedade conjugal.

Exemplos de Cláusulas Patrimoniais:

  • Definição do regime de Separação Total de Bens ou Comunhão Universal.
  • Estabelecer que determinados bens adquiridos onerosamente durante o casamento, mesmo em regimes de comunhão, sejam considerados particulares.
  • Prever regras para a administração de bens individuais ou comuns.
  • Estipular compensações financeiras em caso de divórcio que impacte a capacidade financeira de um dos cônjuges (desde que dentro dos limites legais).

Mas o pacto antenupcial pode ir além das questões financeiras! Ele também pode conter as chamadas cláusulas existenciais (ou extrapatrimoniais).

Cláusulas Existenciais: Regras de Convivência no Contrato?

Essa é a parte que gera mais curiosidade e, muitas vezes, polêmica. As cláusulas existenciais tratam de comportamentos, hábitos e regras de convivência entre o casal. Elas refletem a autonomia privada dos cônjuges em moldar alguns aspectos da sua relação, desde que não violem a ordem pública e bons costumes.

Vemos frequentemente notícias sobre pactos antenupciais de celebridades internacionais com cláusulas consideradas “bizarras” ou inusitadas (multas por traição, regras sobre frequência de encontros, etc.). A pergunta que fica é: isso é válido no Brasil?

Pactos “Hollywoodianos” no Brasil: Os Limites Legais

Embora o Brasil reconheça a possibilidade de cláusulas existenciais no pacto antenupcial, há limites claros definidos pela nossa legislação e interpretação jurídica. A autonomia privada dos cônjuges não é ilimitada.

Um marco importante para entender esses limites é o Enunciado 635 da VIII Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça Federal. Segundo este enunciado, são admitidas cláusulas existenciais no pacto antenupcial e no contrato de convivência, desde que não violem a dignidade da pessoa humana, a igualdade entre os cônjuges e a solidariedade familiar.

O que isso significa na prática?

  • Respeito à Dignidade: Cláusulas que imponham obrigações vexatórias, humilhantes, que cerceiem a liberdade individual de forma excessiva ou que violem a intimidade e vida privada, são inválidas. (Ex: cláusulas sobre frequência sexual, controle excessivo de amizades ou atividades).
  • Igualdade entre os Cônjuges: O pacto não pode estabelecer superioridade de um cônjuge sobre o outro ou discriminações de qualquer natureza.
  • Solidariedade Familiar: O pacto não pode ir contra os deveres básicos do casamento estabelecidos em lei (mútua assistência, respeito, fidelidade, sustento, guarda e educação dos filhos).

Exemplos de Cláusulas Existenciais Possivelmente Válidas no Brasil (sempre dependendo da redação e do contexto):

  • Multa ou compensação (com limites razoáveis) em caso de descumprimento de deveres que gerem prejuízos claros (ex: exposição pública indevida que cause dano à imagem ou carreira do outro).
  • Acordos sobre a organização da vida familiar (ex: divisão de tarefas domésticas, desde que não viole a igualdade).
  • Regras sobre a gestão de redes sociais ou exposição da vida privada do casal.
  • Compromisso de não usar drogas ilícitas.

Cláusulas que soam como roteiro de filme, como multas altíssimas por qualquer desvio comportamental não relacionado a um dano direto ou que tentem controlar aspectos íntimos da vida do casal, dificilmente serão aceitas pelo tabelião na lavratura ou validadas por um juiz caso sejam questionadas.

Por Que Planejar é um Ato de Amor?

Discutir um pacto antenupcial pode parecer frio ou pessimista em meio à euforia dos preparativos do casamento. No entanto, é o oposto. É um ato de transparência, comunicação e respeito mútuo. Planejar juntos significa construir bases sólidas, entender as expectativas um do outro (inclusive as financeiras e de convivência) e prevenir desentendimentos futuros que poderiam desgastar a relação.

É uma oportunidade de sentar, conversar abertamente sobre finanças, carreira, estilo de vida, e como vocês desejam construir a vida a dois de forma organizada e segura para ambos.

A Importância do Advogado Especialista

Como mencionamos no início, o acompanhamento por um advogado especializado em direito de família é essencial. Ele não apenas garantirá que o pacto antenupcial esteja em conformidade com a lei brasileira, mas também auxiliará o casal a discutir temas sensíveis de forma produtiva, sugerir cláusulas adequadas à realidade de vocês e garantir que o documento reflita verdadeiramente a vontade de ambos, protegendo os interesses de forma justa e equilibrada.

Não deixem para depois o que pode garantir a tranquilidade e a segurança jurídica do seu casamento.

Precisa de Ajuda com Seu Pacto Antenupcial?

O planejamento jurídico do casamento é fundamental para a tranquilidade do casal. Nosso escritório possui advogados especialistas em Direito de Família prontos para auxiliar vocês na elaboração de um pacto antenupcial completo, válido e que atenda às suas necessidades específicas.

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Planejamento patrimonial para noivos – parte 1

Dar o próximo passo no relacionamento é um momento mágico, repleto de sonhos e planos para o futuro. Em meio à organização da festa e à emoção dos preparativos, existe um aspecto crucial que merece a atenção dos noivos: o planejamento patrimonial pré-nupcial. Longe de ser um tema frio ou calculista, ele é um ato de cuidado e visão que blinda o casal para os desafios futuros, garantindo segurança e clareza para ambos.

No Brasil, a legislação estabelece um regime de bens padrão para o casamento, que será aplicado caso o casal não formalize uma escolha diferente. No entanto, é fundamental que os noivos compreendam que existem outras opções mais adequadas às suas realidades e desejos. A ausência de um planejamento jurídico adequado antes do casamento pode gerar sérios prejuízos financeiros e emocionais, tornando essencial a análise de alternativas.

Por que explorar além do regime padrão?

Cada casal possui uma história única e patrimônios individuais que podem ter sido construídos antes da união. Ignorar essa individualidade ao se ater ao regime padrão pode gerar situações desfavoráveis no futuro, especialmente em caso de dissolução do matrimônio. O planejamento pré-nupcial permite definir as regras do jogo de forma clara e consensual, alinhando as expectativas de ambos e evitando litígios desgastantes.

Um Mundo de Possibilidades: Escolhendo o Regime Ideal

A boa notícia é que os noivos não estão limitados ao regime padrão. Existem diversas modalidades de regimes de bens que podem se adequar perfeitamente às suas necessidades. A separação total de bens é uma excelente opção para quem busca manter seus patrimônios completamente distintos. Já a comunhão universal de bens implica na partilha de todos os bens, presentes e futuros. Além disso, existe a flexibilidade do regime misto, que combina elementos de diferentes regimes para atender às particularidades do casal.

Para casais com situações financeiras complexas ou que buscam proteger seus legados individuais, explorar essas alternativas é crucial. A decisão sobre qual regime adotar deve ser tomada com a orientação de um advogado especializado em direito de família, que poderá apresentar as implicações legais de cada escolha e auxiliar o casal a encontrar a solução mais justa e segura.

Indo Além do Financeiro: O Planejamento Extrapatrimonial

O planejamento pré-nupcial transcende as questões financeiras. Ele também pode abordar aspectos extrapatrimoniais, como acordos sobre a criação dos filhos e a divisão de responsabilidades domésticas. Embora não possuam a mesma força legal de um contrato de regime de bens, esses alinhamentos demonstram maturidade e contribuem para uma convivência mais harmoniosa.

O Momento de Decidir é Agora!

Investir em um planejamento patrimonial pré-nupcial é investir na segurança e na tranquilidade do seu relacionamento. É um diálogo aberto e honesto sobre o futuro, que fortalece a confiança e evita surpresas desagradáveis.

#PlanejamentoPréNupcial #RegimeDeBens #DireitoDeFamília #Casamento #SegurançaPatrimonial #AdvogadoDeFamília

Famosas desquitadas

O Brasil foi o quinto último país do mundo a permitir o divórcio, com a Lei 6515/77, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 1978 (sim, justamente a data que os meus próprios pais se casaram).

Existe ainda uma exceção bizarra ao redor deste planetinha: as Filipinas, onde ainda não existe o divórcio. Fico somente me perguntando como é o caos dos casais se separando de fato e se juntando e fazendo famílias novas depois sem papel.

Até o fim de 1977, portanto, tinha ainda apenas o desquite , o famoso artigo 315 do Código Civil Beviláqua (confere, porque, no meu blog, fake news é o que não tem). E, acredite, muitas mulheres bem de vida, inteligentes, conseguiram o desquite. Exemplos:

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1. A mais famosa de todas, Clarice Lispector, que, em 1959, desquitou-se do então embaixador Maury Gurgel Valente, mesmo já tendo dois filhos com ele. No conto “O Estado atingido”, ela comenta o fato e porque nunca deixou o motivo vir a público:

Depois da época de palavras de amor, de palavras de raiva, de palavras, as relações entre os dois tornaram-se aos poucos impossíveis de resultar numa frase ou numa realidade clara. À medida que estavam casados há tanto tempo, as divergências, as desconfianças, certa rivalidade jamais chegavam à tona, embora elas existissem entre eles como o plano dentro do qual se entendiam. Esse estado quase impedia uma ofensa e uma defesa, e jamais uma explicação.

Formavam o que se chama um casal comum.

O então diplomata não quis muita briga, embora a amasse e houvesse tentado se reconciliar.

2. Inezita Barroso

Contrariou duplamente os temidos pais conservadores do clã dos Aranha de Lima, e tomou a corajosa decisão de desquitar-se depois de oito anos de casada. “Quando dei a notícia para a família, durante um almoço, no qual estava a minha avó e até um bispo, foi um desbunde !”

Isso em 1955. Coragem!

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3. Arethuza Aguiar.

Sim, advogada e esposa do autor da Lei do Divórcio, Nelson Carneiro, como o primeiro divórcio decretado por um tribunal.

Já estavam separados de fato há 8 anos.

4. Chiquinha Gonzaga

Ela não se separou no papel porque não era possível no século XIX, mas o ex-marido conseguiu a inacreditável façanha de conseguir na Igreja Católica em 1877 (!)

Fontes:

https://www.migalhas.com.br/tudo-sobre/arethuza-figueiredo-henrique-silva-de-aguiar

https://artsandculture.google.com/story/5wWx0ZrCxThmLw?hl=pt-BR

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